Linhagem de heróis - O neto de Jacques Cousteau dá continuidade
à saga familiar de defesa dos mares
> 29/04/2009

Linhagem de heróis
O neto de Jacques Cousteau dá continuidade à saga
familiar de defesa dos mares em uma nova série de documentários
que estreia dia 22, no "Animal Planet"
Philippe Pierre Jacques-Yves Arnault Cousteau Jr., ou Philippe Cousteau
Jr., tem um grande nome a zelar.
Ele é neto de Jacques Cousteau, o francês que inventou
o aqualung nos anos 1940 e, a bordo do navio oceanográfico Calypso,
popularizou as imagens do mundo submarino por meio de dezenas de documentários
rodados entre os anos 1950 e 1980.
Quem filmava as aventuras de Jacques Cousteau era o seu filho caçula,
Philippe, o pai de Philippe Jr.
Mas Philippe Jr. não conheceu seu pai. Ele ainda estava na barriga
da mãe, quando, em 1979, seu pai morreu num acidente de barco
em Portugal.
As imagens que Philippe Jr. tem do pai são as do explorador do
Calypso. Agora com 29 anos, Philippe Jr. reivindica para si a tradição
familiar. É a sua vez de explorar o mundo submarino e mostrá-lo
ao mundo em documentários.
É o caso da série Oceanos, da BBC, que estreia, no canal
a cabo Animal Planet. Nesta entrevista, Philippe Cousteau Jr. fala do
que significa ser um Cousteau.
leia mais - http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI69261-15227,00-LINHAGEM+DE+HEROIS.html

Entrevista :
ÉPOCA – Philippe, tive
a honra de entrevistar seu avô, Jacques-Ives Cousteau (1910-1997),
na sua última vinda ao Brasil, em 1993. Para mim foi emocionante,
pois cresci assistindo aos documentários sobre as aventuras do
comandante do Calypso ao redor do mundo. Você é o mais
novo representante de uma linhagem de aventureiros iniciada nos anos
1940 por seu avô, e que teve continuidade com seu tio, Jean-Michel,
e seu pai, Philippe (1940-1979), que morreu antes de você nascer.
Como é ser o herdeiro deste legado?
Philippe Cousteau – É um prazer conversar
com qualquer um que tenha conhecido o meu avô. É uma honra
e uma responsabilidade ser neto dele. Eu cresci ouvindo falar das suas
aventuras. Apesar de morarmos nos Estados Unidos e nosso avô na
França, eu e minha irmã, Alexandra, o encontrávamos
várias vezes por ano. Meu avô era muito ocupado, mas sempre
tinha um tempinho para passar com a gente. Ele exerceu uma grande influência
sobre nossas vidas.
Quanto ao nosso pai, Philippe, ele começou
a mergulhar com meu avô quando tinha apenas cinco anos, e o acompanhou
em diversas viagens ao redor do mundo a bordo do Calypso. Até
morrer, em 1979, nosso pai produziu 26 documentários da série
O Mundo Submarino de Jacques Cousteau. Minha irmã tinha três
anos quando ele morreu. Eu nasci sete meses após sua morte. Para
homenagear sua memória, eu e minha irmã fundamos nos Estados
Unidos uma organização não governamental chamada
EarthEcho International. Foi uma forma de dar prosseguimento ao seu
trabalho.
ÉPOCA – O que faz a EarthEcho?
Cousteau – Meu pai foi um visionário na
compreensão da conexão humana com o meio ambiente. Minha
irmã e eu damos prosseguimento ao seu legado, ao explorar os
mares através de documentários como a série Oceanos.
Através da nova série, procuro mostrar quais são
os efeitos negativos, mas também positivos, do ser humano sobre
o meio ambiente marinho. O ser humano faz parte do meio ambiente. Creio
que ainda persiste em muitos setores da sociedade o mito de que o homem
é o senhor da natureza, e que temos o direito de fazer dela o
que bem entendermos, quando na verdade, como qualquer animal, nós
precisamos de ar puro e de água limpa para sobreviver. Ao insistir
nesta falsa premissa, a humanidade corre um sério risco. O trabalho
da EarthEcho é transmitir esta mensagem a uma nova geração,
uma geração que não cresceu assistindo os filmes
do meu avô. Compartilhar este espírito é o que significa
ser um Cousteau.
ÉPOCA –
No primeiro episódio de Oceanos, você mergulhou no mar
de Cortéz, no México. Há 15 anos, ali havia uma
enorme concentração de tubarões martelo. Mas hoje,
não acharam quase nenhum.
Cousteau – No mar de Cortéz, onde havia
centenas de tubarões martelo, só encontramos alguns filhotes
vivos – além de duas ou três carcaças de filhotes
apodrecendo na praia, sem as barbatanas. O comércio de barbatanas
para satisfazer na Ásia os apreciadores da sopa que se faz com
elas é responsável pela morte de milhões de tubarões
anualmente. Foi o que aconteceu no mar de Cortez. Seus tubarões
martelo desapareceram. E isto aconteceu rapidamente. É alarmante.
Muita gente não sabe como os tubarões são importantes
para a saúde do ecossistema marinho. Quando se mata tubarões,
estão se matando os animais que mantêm a saúde do
mar. São eles que comem os peixes doentes, velhos e fracos. São
eles que limpam as águas das carcaças dos animais mortos.
Sem os tubarões para realizar este trabalho, doenças podem
se alastrar pelos cardumes, dizimando os estoques de peixes e destruindo
ecossistemas inteiros.
ÉPOCA – A tragédia
dos tubarões é apenas um aspecto da rapina que a indústria
pesqueira realiza nos mares.
Cousteau – Sim. Assim como os tubarões,
o atum do Atlântico norte está numa situação
crítica, da qual ele não deve se salvar. O atum do Atlântico
norte está em vias de extinção. O mesmo ocorre
com várias espécies em todos os mares. Para quem nunca
teve a oportunidade de ver na sua frente um grande navio-pesqueiro do
Japão, da China, de Taiwan ou da Rússia, é difícil
compreender a escala da pesca industrial e quão devastadora é
a tecnologia que eles usam. Os navios são grandes como transatlânticos.
Suas redes de arrasto varrem e destroem todo o solo marinho. Nada escapa
delas. O que sobra é um leito marinho destroçado e estéril.
Tudo que é recolhido pelas redes é trazido para a superfície.
Mas no navio só ficam as poucas espécies de valor comercial.
Todo o resto é jogado fora, morto. A pesca industrial é
insustentável e essencialmente criminosa. É um crime que
a Europa e os Estados Unidos não façam nada para impedir
a extinção dos cardumes. Na Europa, na África e
na América Latina, muitos países insistem em ignorar que
a pesca seletiva e sustentável, respeitando-se cotas e evitando
a pesca na época de reprodução, é a melhor
forma de defender os interesses dos pescadores. Prosseguir com a pesca
predatória, ignorando os alertas dos cientistas, é o caminho
certo para a falência da indústria pesqueira e o desemprego
de milhões de pescadores – sem falar na extinção
de diversas espécies.
ÉPOCA – A solução
seria banir a pesca internacional para recompor os cardumes, como foi
feito com a caça às baleias há 20 anos?
Cousteau – Sim. Mas não é o suficiente.
É verdade que, no caso das baleias, 20 anos de banimento da pesca
ajudou a elevar o número de animais - apesar de a Islândia,
o Japão e a Noruega continuarem a infringir criminosamente as
leis internacionais. Mas a quantidade de baleias existente hoje ainda
não se compara nem de perto àquela anterior ao início
da caça, no século XVIII. E nem todas as espécies
se recuperaram. É o caso da baleia franca do Atlântico.
Seus números não cresceram. Hoje, só restam 300.
É muito provável que este número não seja
suficiente para livrar a espécie da extinção.